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Vacinação infantil fica em queda no Brasil desde 2015, mostra relatório inédito

18 de junho de 2025


Na última década, os pais e mães do Brasil levaram menos os filhos para tomar vacina, particularmente quando a imunização requer segunda dose ou reforço. É isso que mostra o novo Anuário VacinaBR, planejado através do Instituto Questão de Ciência (IQC) com dados sobre vacinação de 2000 a 2023.

Mesmo com indicativos de recuperação depois da pandemia, os dados de imunização infantil do país ainda estão, em sua maioria, piores do que dez anos atrás. Em 2023, o último ano analisado no relatório, 80% do povo brasileira vivia em municípios que não haviam alcançado as metas de vacinação de crianças do Programa Nacional de Imunizações (PNI).

O PNI foi formulado em 1973 para organizar as ações de vacinação no país, que até então eram episódicas e não alcançavam a cobertura necessária para erradicar doenças. Desde então, o país teve sucesso em campanhas de vacinação infantil, eliminando a poliomelite e controlando doenças como a caxumba e a coqueluche. Conscientizar os cidadãos sobre a necessidade das vacinas levou décadas, mas deu certo. Agora, essas conquistas parecem estar ameaçadas.

O anuário que mostra as quedas na cobertura vacinal infantil brasileira desde 2015 foi desenvolvido com apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim). Dá para entrar o documento completo, com todos os dados planejados, aqui.

Bolsões de baixa cobertura

As bases oficiais de vacinação são enormes e complicadas, de difícil navegação para leigos. Por isso, o IQC produziu a plataforma VacinaBR, lançada no mês de dezembro de 2023 com informações planejadas a contar das informações brutos de bancos públicos de vacinação e dados populacionais do IBGE. O anuário coordena os dados mais importantes em um só documento, para amparar a conscientizar os cidadãos e os tomadores de decisões sobre as necessidades do Brasil.

Com os dados, dá para notar que as taxas de cobertura vacinal cresciam de 2000 até 2015. A contar daí, várias delas começaram a cair. Em muitos casos, a pandemia de Covid-19 só piorou a situação, num misto de dificuldade de entrar os postos de saúde e desinformação sobre as vacinas.

Os índices começaram a se recuperar a contar de 2022, mas em 2023 nenhuma das vacinas infantis havia alcançado o objetivo de cobertura em todos os estados do Brasil. Um dos fatores responsáveis por isso é o abandono vacinal entre uma dose e outra.

Algumas imunizações, como a tríplice viral (que preserva proteção contra sarampo, rubéola e caxumba), precisam de duas doses para vingar. A queda entre os níveis de primeira e segunda dose é alta: a maioria dos estados em 2023 ficou abaixo de 50% da cobertura vacinal da segunda dose. São Paulo, o estado com a maior taxa, tem uma cobertura de só 70%. No Mato Grosso do Sul, por exemplo, a cobertura chega a 100% na primeira dose e cai para 37,8% na segunda vacina.

A queda na cobertura não foi só culpa do abandono vacinal. Menos pessoas estão tomando a primeira dose. Em 2014, todos os estados do Brasil cumpriram o objetivo de 95% para primeira dose da tríplice viral; em 2023 só quatro unidades federativas alcançaram o objetivo.

Outra imunização que sofreu com o abandono vacinal a contar de 2015 foi a vacina pneumocócica 10-valente, que previne formas graves de pneumonia. Em 2023, só Tocantins e Roraima alcançaram o objetivo de 95% de cobertura para a primeira dose. O estado que teve a pior cobertura do reforço foi o Rio de Janeiro, que não atingiu nenhuma das metas de cobertura vacinal do PNI analisadas através do anuário.

Mesmo que um estado apresente uma média de cobertura vacinal satisfatória, novos problemas aparecem quando se presta atenção aos dados das cidades. Em alguns estados, como Amazonas e Rio Grande do Sul, a cobertura pode ter uma oscilação de 95% em um município para menos de 50% no município vizinho. Isso cria bolsões de baixa cobertura, regiões vulneráveis ao ressurgimento de doenças antes eliminadas e que impedem a imunização coletiva do povo. Vacinas só funcionam bem quando todo mundo toma.

Atualmente, o país corre o risco de ver o retorno de uma doença como a pólio, que teve o último caso registrado por aqui em 1989. Desde 2016, o Brasil não alcança o objetivo de 95% de cobertura vacinal contra a poliomelite. Em 2023, menos de 20% do povo vivia em municípios que haviam cumprido essa meta. Entre 2001 e 2010, esse número variava entre 60% e 75%.

Até a BCG, que ajuda na prevenção da tuberculose e deixa uma marquinha no braço, teve uma queda significativa na cobertura a contar de 2019. Ela é aplicada como dose única logo depois do nascimento, o que facilitava os níveis altos de cobertura. No entanto, onze estados ficaram com índices abaixo dos 80%.

Os piores números de cobertura de imunização se concentram na área Norte, com índices altos de abandono vacinal. É um problema que só vai ser resolvido com novas campanhas amplas de vacinação, que hoje precisam vir auxiliadas de campanhas de enfrentamento à desinformação. O Brasil já foi craque de vacinação e de futebol. Estamos perdendo nos dois – mas só uma dessas derrotas coloca a vida das crianças em risco. Não dá para abrir mão desse título.

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Fonte: Super Interessante

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