É praticamente impossível cravar, com absoluta certeza, quando foi o primeiro bloco de Carnaval brasileiro porque existe um problema essencial nesta questão: a amplitude de respostas do que pode ser considerado um “bloco”.
O Carnaval é antecedido através do Entrudo, uma festa portuguesa festejada antes da Quaresma. No Brasil, o primeiro registro do Entrudo ocorreu no século 16, em Pernambuco, no começo da colonização.
Havia duas festividades parecidas: o Entrudo Popular e o Entrudo Familiar. “O Entrudo popular acontecia nas ruas, sem regras e sem limites, seu público eram os escravos, desempregados, trabalhadores pobres, vendedores de rua, mascates e pessoas que habitavam a rua, em que água, farinha e até mesmo urina, lama e estrume eram jogados nos participantes”, afirmam os pesquisadores Antonio Firmino de Oliveira Neto e Teylor Fuchs Cardoso dos Santos no artigo Carnaval Brasileiro E Identidade Nacional – Uma Breve História Da Folia E Da Nação. “Enquanto o Entrudo Familiar acontecia dentro das casas e era um evento de socialização, muitas vezes servindo para promover encontros, aproximar famílias e arranjar casamentos”.
A pesquisadora Lorena Hirsch afirma que “tanto em Portugal, como no Brasil, o Carnaval não se assemelhava de forma alguma aos festejos da Itália Renascentista; era uma brincadeira de rua muitas vezes violenta, onde se cometia todo tipo de abusos e atrocidades. Era comum os escravos molharem-se uns aos outros, usando ovos, farinha de trigo, polvilho, cal, goma, laranja podre, restos de comida, enquanto as famílias brancas divertiam-se em suas casas derramando baldes de água suja em passantes desavisados”.
No século 19, a Missão Francesa, encarregada através do imperador D. João VI de civilizar o Brasil, levou diversas influências da França para cá, incluindo os bailes de máscara, que já existiam naquele país desde o século 17. Eram bailes fechados, luxuosos, frequentados através da elite e conduzidos sob rígidas regras. Começaram no Rio de Janeiro e se espalharam pelos outros centros urbanos do país.
É em meados do século 19, portanto, que começa a surgir o Carnaval propriamente dito, unindo essas duas heranças culturais.
Carnaval: qual a origem do nome “trio elétrico”?
Missões carnavalescas: os primeiros blocos
Com início de 1850, começaram a surgir as missões carnavalescas, que eram bailes de máscaras que andavam em desfile pelas ruas, geralmente planejadas por jovens de famílias ricas. Assim como hoje, havia uma concentração (um hotel ou espaço alugado) onde eles se reuniam e depois a procissão, que seguia rumo a algum baile famoso.
As camadas mais populares começaram se organizar em grupos semelhantes que também saíam através da rua. Até a primeira década do século 20, esses grupos não receberam nenhum nome que os distinguissem definitivamente um dos outros, sendo chamados aleatoriamente de clubes, blocos, cordões, ranchos ou sociedade”, afirma o pesquisador Felipe Ferreira em O livro de ouro do carnaval brasileiro.
Essa confusão de nomes é importante porque, hoje, seria difícil eleger “o primeiro”, avaliando que um era cordão, outro era clube, outro era rancho e por aí vai. O próprio termo “bloco” só ganhou popularidade a começar de 1906, quando a coligação que elegeu o presidente Afonso Pena tinha justamente o nome de “O Bloco”.
Alguns possíveis candidatos a primeiro bloco do Brasil:
- 1855: Congresso das Sumidades Carnavalescas. As sociedades eram clubes que competiam entre si nos desfiles. O escritor José de Alencar foi um dos fundadores.
- 1906: Bloco dos Trepadores do Engenho. O historiador Tiago Ribeiro, autor do livro Os Blocos do Carnaval Carioca, defende que este foi o primeiro.
- 1914: Grupo Carnavalesco Barra Funda. É geralmente destacado como o primeiro bloco de São Paulo. Esse grupo foi fechado em 1930 e reaberto em 1954 já como a escola de samba Camisa Verde e Branco.
- 1918: Cordão da Bola Preta. Considerado por muitos o bloco mais antigo do Rio, e, por alguns, como o primeiro.
O Carnaval toma forma
Voltando para o século 19, é preciso também lembrar que, nesta época, o Carnaval ainda não tinha a cara que tem hoje. A música principal era a polca e as máscaras e fantasias remetiam ao folclore europeu, com figuras como o Rei Momo e a Arlequina.
Em 1899, a maestrina Chiquinha Gonzaga compôs para o famoso cordão Rosa de Ouro, no Rio de Janeiro, a marcha “Abre Alas”, inspirada através da cadência rítmica dos ranchos e cordões — a faixa se tornou um protótipo da marchinha, a canção carnavalesca.
O samba iniciou a despontar como ritmo do Carnaval a começar de 1917, com a inauguração de “Pelo Telefone”, de Donga e Mauro de Almeida, considerado o primeiro samba do Brasil. Embora as marchinhas tenham sido mais populares na primeira metade do século 20, o samba acabou assumindo o posto de gênero musical personagem principal a começar dos anos 1960.
Na Bahia e em Pernambuco, o afoxé surgiu na virada do século 19 para o 20, mesma época em que o frevo ganhou as ruas de Recife e o maracatu conquistou Olinda. Assim como o samba, eram ritmos que misturavam a herança portuguesa com a herança africana e também influências das Américas.
A primeira escola de samba do país, batizada de Deixa Falar, foi fundada em 1928 no bairro carioca de Estácio de Sá (no mesmo ano, foi fundada a Estação Primeira de Mangueira). A primeira disputa entre as escolas ocorreu já em 1929. Em 1933, o desfile das escolas de samba passou a ser parte do programa oficial do Carnaval e ganhou regulamentação. Durante a Era Vargas (1930-1945), os desfiles se desenvolveram e as escolas passaram a precisar de alvará de funcionamento para existirem.
Por final, em 1950, em Salvador, surgiu o trio elétrico. Foi um improviso: a dupla de músicos baianos Dodô e Osmar colocou seus instrumentos na caçamba de um antigo caminhão e adicionou alto-falantes, passando então a desfilar pelas ruas da cidade. Inicialmente, os trios elétricos tocavam frevo, mas o axé (gênero musical derivado do afoxé) foi incorporado a começar do final dos anos 1970.
Fonte: Super Interessante