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Como funciona o remédio brasileiro que pode auxiliar a recuperar movimentos depois de machucados na medula

14 de setembro de 2025


Uma proteína extraída da placenta humana pode abrir um novo caminho no tratamento de machucados na medula espinhal, condição que frequentemente leva à paraplegia (paralisia dos membros inferiores) ou tetraplegia (paralisia de braços e pernas).

Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em colaboração com o laboratório farmacêutico Cristália, desenvolveram a polilaminina, um remédio experimental que apresentou resultados promissores em pacientes e animais. 

A substância tem como base a laminina, proteína presente no corpo desde a fase embrionária. A principal função dessa molécula é formar um tipo de malha tridimensional que facilita a comunicação entre os neurônios.

De acordo com os cientistas, quando reintroduzida no organismo, a polilaminina pode desenvolver neurônios maduros a criarem novos axônios – fibras que conduzem impulsos elétricos –, abrindo assim rotas alternativas para restabelecer a condução de indícios interrompidos através do trauma. Em machucados recentes, o efeito tende a ser de proteção imediata contra o dano; em casos crônicos, pode atuar na regeneração de conexões.

“É uma molécula de funções primitivas, presente até em esponjas marinhas. Por ser tão onipresente e necessária desde os estágios mais primitivos da vida, deveria ser mais observada e valorizada”, explicou Tatiana Coelho de Sampaio, bióloga e professora da UFRJ que pesquisa a proteína existe 25 anos, à Veja SP.

Desde 2018, oito pacientes com machucados medulares completas participaram de um estudo acadêmico conduzido através da UFRJ. Cada um recebeu uma única injeção de polilaminina diretamente na medula, em até 72 horas depois de o acidente. Seis sobreviveram e apresentaram graus distintos de recuperação motora.

O caso mais emblemático é o de Bruno Drummond de Freitas, que ficou tetraplégico depois de um acidente de trânsito. Cuidado 24 horas depois, iniciou com movimentos discretos – como mexer o dedão do pé – e, durante de meses de fisioterapia intensiva, recuperou quase toda a mobilidade e voltou a caminhar e correr.

Outra paciente, a esportista de rugby em cadeira de rodas Hawanna Cruz Ribeiro, sofreu uma queda de dez metros em 2017 que a deixou sem movimentos abaixo do pescoço. 3 anos depois, recebeu o remédio e relatou avanços significativos: recuperação parcial do tronco, melhora da sensibilidade e autonomia para retomar o esporte de alto rendimento.

Também houve relatos de ganhos em pacientes crônicos cuidados anos depois de o trauma. Neste grupo, os efeitos parecem estar ligados mais à regeneração neuronal do que à proteção imediata. Nos testes com animais, a substância exibiu resposta rápida: ratos voltaram a se mover em 24 horas, enquanto cães com machucados espontâneas voltaram a caminhar.

    A polilaminina iniciou a ser desenvolvida nos anos 2000, e o registro da patente levou 18 anos. O remédio é produzido a contar de placentas doadas por mulheres saudáveis auxiliadas durante a gestação.

    Um dos motivos para a demora na difusão dos resultados foi o acompanhamento prolongado dos pacientes. Por sete anos, os pesquisadores monitoraram possíveis efeitos adversos de longo período. Até o momento, não houve registro de reações graves atribuídas ao remédio. Eventos como dores de cabeça e infecções foram relacionados às próprias machucados, não à polilaminina.

    Apesar disso, especialistas pedem cautela. Os testes realizados até o momento envolveram grupos pequenos, sem comparação com um grupo placebo, e os resultados foram exclusivamente parcialmente publicados. Algumas perguntas importantes ainda não têm resposta: quantas doses poderão ser aplicadas? Existe efeito cumulativo? Os ganhos observados são permanentes?

    O Cristália aguarda autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para começar a fase 1 de ensaios clínicos, que avalia principalmente a segurança da intervenção em um pequeno grupo de voluntários. 

    Em comunicado enviada à imprensa, a Anvisa informou que ainda não recebeu o pedido formal para começo da etapa e aguarda resultados complementares dos testes pré-clínicos (em animais), uma exigência padrão antes de qualquer aplicação regulatória em humanos.

    Hospitais como o das Clínicas e a Santa Casa de São Paulo já estão preparados para começar as aplicações quando tiver aprovação. A fase 1 pode trazer por volta de um ano e meio, e todo o processo regulatório pode se estender por até 3 anos antes que o remédio esteja disponível, caso seja aprovado.

    As machucados de medula espinhal não são causadas exclusivamente por acidentes de trânsito, quedas ou mergulhos. Também podem resultar de doenças inflamatórias, como a esclerose múltipla, de tumores, de fraturas associadas à osteoporose ou até de compressões na coluna provocadas através do envelhecimento.

    Hoje, não existe terapia capaz de regenerar tecido nervoso de forma eficaz. Se a eficácia da polilaminina for comprovada, o impacto pode ser global. “Nenhum estudo tinha demonstrado isso até o momento. No mundo.”, afirmou o neurocirurgião Marco Aurélio Brás de Lima, que participou da pesquisa, ao Jornal Nacional.

    Ainda que o motivação seja grande, a própria Tatiana prefere manter a prudência. “A todo momento a gente se pergunta se vai se decepcionar. O que me dá segurança é o retorno e a interação com quem está à minha volta e os resultados que estamos vendo”, explicou à Folha de S.Paulo.

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    Fonte: Super Interessante

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