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Cientistas propõem estratégias para preservar Foz do Amazonas em meio à exploração de petróleo

4 de setembro de 2025


Na última década, Guiana e Suriname ganharam muito dinheiro com exploração de petróleo. Foi esse sucesso dos países vizinhos que motivou alguns estudos sísmicos na Foz do Amazonas, que indicam que a área pode ter viabilidade comercial para explorar óleo e gás. No mês de junho, a Agência Nacional de Petróleo (ANP) abriu 47 novos blocos de exploração para oferta na área, e alguns já foram arrematados por empresas como Petrobras, ExxonMobil e Chevron.

O problema é que a área em que o rio Amazonas deságua no oceano Atlântico fica cheia de regiões prioritárias para a biodiversidade, zonas de conservação que poderiam ser muito afetadas direta e indiretamente pelos esforços para encontrar petróleo na costa norte do país. Ali fica a maior floresta contínua de manguezais do mundo, vários recifes e os habitats de diversas espécies ameaçadas – além daquelas que a ciência ainda nem conhece.

A necessidade de criar e realizar regiões protegidas na área, inclusive na costa, “torna-se urgente diante da possibilidade de exploração de energia em um ecossistema ainda praticamente intocado e, em grande parte, desconhecido”. É isso que dizem cientistas que participaram de um grupo de trabalho para propor estratégias sustentáveis para a conservação da Foz do Amazonas.

O GT da Foz do Amazonas foi coordenado através do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) e o Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), e desenvolveu um documento com ideias para preservar ao máximo a biodiversidade da área, mesmo que a exploração de petróleo acabe ocorrendo (como tudo indica que vai). O trabalho dos cientistas foi entregue para o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) no último dia 20 de agosto.

    Esse relatório reúne as vozes de cientistas, chefias tradicionais, gestores públicos e ativistas da sociedade civil do Amapá, Maranhão, Pará e de São Paulo, e indica a criação de um mosaico de regiões protegidas marinhas, que conservaria as regiões mais ameaçadas e instituiria diretrizes para as regiões de desenvolvimento sustentável, onde poderia ocorrer a extração de petróleo.

    São 18 propostas ao total, que surgiram a começar de um ano de debates com especialistas em diferentes regiões e pretendem integrar a conservação do ecossistema ao desenvolvimento sustentável e justo da área, envolvendo as populações tradicionais na gestão de regiões protegidas. O documento chega em um momento importante para o debate ambiental na área Norte, no Brasil e no mundo, já que Belém, no Pará, vai sediar a COP30 no mês de novembro.

    Para compreender melhor as propostas, a Super falou com o professor Alexander Turra, professor titular do Instituto Oceanográfico da USP e um dos integrantes do GT Foz do Amazonas.

    Mais exploração? Mais conservação

    Se existir exploração de petróleo na Foz do Amazonas, a área vai estar suscetível a muitos novos riscos ambientais e vai precisar de muito mais proteção e conservação. “O que a gente busca é garantir que aquele ecossistema funcione adequadamente para continuar provendo os benefícios que ele provê para a humanidade”, explica Turra.

    A exploração de hidrocarbonetos na costa não envolve só perfurar um poço no meio do mar, mas também construir infraestrutura, trazer pessoas para morar na área, abrir portos e estradas para fazer o transporte da matéria-prima – tudo isso numa área muito sensível a vários riscos ambientais. 

    É daí que vem a ideia de criar um mosaico de regiões protegidas marinhas, que integre e articule vários setores com diferentes níveis de uso, desde regiões de desenvolvimento sustentável, que permitiram a exploração regularizada e fiscalizada de petróleo, e zonas de proteção integral.

    Para definir o desenho desse mosaico, a ciência e o diálogo com os atores locais e o conhecimento tradicional entram em jogo. No documento do GT, os especialistas sugerem uma primeira aproximação de como poderia ficar esse mosaico, baseado em documentos do MMA. O importante, segundo Turra, é poder aumentar “o rigor das operações que podem eventualmente causar impactos”, como a exploração petrolífera e como outras atividades tradicionais, como a pesca.

    Explorar petróleo em uma área de desenvolvimento sustentável pode parecer uma contradição, já que o principal combustível para a crise climática são os combustíveis fósseis. “A lógica dentro da agenda climática não existe, é um contrassenso”, afirma Turra, mas ele também acredita que a autonomia energética não é capaz no curto e médio período, e por isso é preciso ter uma discussão pragmática para trazer recomendações objetivas que possam minimizar os impactos dessa exploração.

    Além do mosaico de regiões protegidas, os especialistas também sugerem o desenvolvimento do Instituto Nacional da Foz do Rio Amazonas (INFA), que produziria conhecimento científico sobre o ecossistema e integraria esses dados à pauta do desenvolvimento “sustentado e sustentável” da área, valorizando a biodiversidade e “quem produz, e não a quem intermedia”.

    Para que essas opiniões virem realidade, é preciso acionar os tomadores de decisão, tanto no Governo Federal, focando em diferentes ministérios como o MMA e o Ministério de Minas e Energia, além da Casa Civil, quanto no Legislativo.

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    Fonte: Super Interessante

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