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Adeus, Papanicolau: como funciona o novo teste de HPV no SUS

19 de outubro de 2025


Se você é mulher e odeia fazer o Papanicolau, existe boas notícias. O exame mais temido das consultas ginecológicas começa a ser substituído no Sistema Único de Saúde (SUS) por um teste de biologia molecular muito mais sensível, moderno e plenamente desenvolvido no Brasil.

Chamado de teste DNA-HPV, o método identifica o papilomavírus humano (HPV) – principal causa do câncer do colo do útero – antes mesmo de surgirem machucados.

A tecnologia detecta 14 genótipos do vírus, incluindo os tipos 16 e 18, responsáveis por por volta de 70% dos casos da doença. Produzido através do Instituto de Biologia Molecular do Paraná, ligado à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o exame já fica disponível em unidades do SUS de vários estados e será gradualmente ampliado para todo o país até 2026.

Conforme o Ministério da Saúde, o câncer do colo do útero é o terceiro mais frequente entre as mulheres brasileiras, provocando por volta de 20 mortes diariamente, inclusive entre aquelas com menor acesso a serviços de saúde.

O desenvolvimento da doença é lento e ocorre a começar de infecções persistentes através do HPV, que são comuns: “Estima-se que 80% das mulheres sexualmente ativas tenham contato com o vírus ao longo da vida. Mas a maior parte dessas infecções é resolvida pelo próprio organismo. É a infecção persistente que causa danos celulares contínuos e pode evoluir para o câncer do colo do útero”, falou à Super a patologista clínica Annelise Wengerkievicz Lopes, diretora da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML).

Ou seja: a presença do HPV não significa que a mulher tenha câncer. No entanto, é necessário acompanhamento e exames adicionais. “Podemos diagnosticar muito antes do desenvolvimento da doença, permitindo um rastreio precoce e mais eficaz”, diz Annelise.

O que muda no diagnóstico

Durante décadas, o principal método de rastreamento foi o Papanicolau, criado em 1928 através do médico grego George Papanicolaou. Ele se baseia na coleta de um raspado de células do colo do útero, que são colocadas numa lâmina e analisadas por um profissional treinado para visualizar alterações que possam ser sugestivas de transformação para o câncer.

“O objetivo é detectar essas alterações antes que elas se tornem um câncer, porque o tratamento é muito mais favorável quando a doença ainda não se desenvolveu. Mas, por depender da observação ao microscópio de um especialista, o método traz alguns desafios: é preciso ter profissionais experientes, e há variação entre observadores – muitas vezes os diagnósticos não são totalmente concordantes”, afirma a patologista.

Já o teste de DNA-HPV utiliza PCR (reação em cadeia da polimerase), técnica que amplifica pequenas quantidades de DNA do vírus, tornando viável detectá-lo com precisão. É o mesmo princípio usado nos testes de Covid-19 e permite examinar centenas de amostras ao mesmo tempo, identificando os tipos de maior risco.

A coleta é parecida com a do Papanicolau, envolvendo a secreção do colo do útero, mas o procedimento tende a ser mais rápido e menos desconfortável. Isso porque, ao contrário do exame tradicional, não é necessário raspar muitas células nem espalhá-las manualmente em uma lâmina.

A amostra vai diretamente para um tubo com líquido conservante e continua para análise laboratorial, onde se busca exclusivamente o DNA do vírus, não alterações celulares. Quando o teste molecular indica infecção, o Papanicolau se mantém como exame de segunda etapa, fundamental para reconhecer qualquer modificação celular precoce, preservando que a paciente receba o acompanhamento ideal antes do desenvolvimento de machucados ou câncer.

Outra diferença é o intervalo entre os exames. “Com o Papanicolau, a recomendação era repetir o teste a cada dois ou três anos. Com o teste de HPV, esse intervalo passa a ser de cinco anos, porque ele tem um valor preditivo negativo muito bom – ou seja, se o resultado é negativo, a probabilidade de câncer é muito baixa”, explica Annelise.

Como vai funcionar no SUS

Conforme o Ministério da Saúde, o teste será inicialmente ofertado em 14 cidades de 11 estados brasileiros, além de Brasília: Rio de Janeiro (RJ), Ribeirão Preto (SP), Uberaba (MG), Juiz de Fora (MG), Fortaleza (CE), Camaçari (BA), Palmares (PE), Recife (PE), Ilha de Combu (PA), Porto Velho (RO), Aparecida de Goiânia (GO), Pelotas (RS), Rio Branco do Sul (PR) e Curitiba (PR).

Para ter acesso ao exame, basta marcar uma consulta ginecológica regular nas Unidades Básicas de Saúde (UBS).

O governo também vai oferecer a autocoleta do material ginecológico, uma alternativa pensada para mulheres com dificuldade de acesso aos serviços de saúde ou resistência a exames ginecológicos. O procedimento será ensinado nas UBS: a paciente coleta a amostra em casa e entrega o material na unidade.

A estratégia, segundo a pasta, é importante para incluir populações que tradicionalmente ficam à margem dos programas de rastreamento, como “mulheres em situação de rua, privadas de liberdade, refugiadas, quilombolas ou com crenças que dificultam o exame podem se beneficiar da autocoleta”. Também é uma alternativa para homens trans, que muitas vezes evitam consultas ginecológicas por desconforto ou preconceito.

Annelise ressalta, apesar disso, que o acompanhamento médico continua essencial. “Mesmo que a mulher faça a autocoleta, é importante manter consultas regulares com o ginecologista, que é o profissional responsável pela saúde da mulher como um todo. O câncer do colo do útero é apenas uma parte dessa atenção”, afirma.

    A implementação do teste DNA-HPV faz parte do “Plano Nacional para o Enfrentamento do Câncer do Colo do Útero”, que estima alcançar até 7 milhões de mulheres por ano, na faixa etária entre 25 e 64 anos. O rastreamento será coordenado – ou seja, o SUS convocará de forma ativa as mulheres dessa faixa etária a fazer o exame, com acompanhamento das equipes de saúde da família.

    A nova diretriz continua recomendações da Planejamento Mundial da Saúde (OMS), que avalia o teste molecular de HPV o padrão-ouro para a detecção precoce da doença. Países como Reino Unido, Espanha e Portugal já adotaram o método como principal ferramenta de rastreamento.

    No Brasil, testes do tipo já existem na rede privada desde os anos 2000. R$ 150 e R$ 400, dependendo do laboratório e (e se o exame é capaz de detectar os tipos de alto risco da doença). Surgiu a começar de tecnologias de PCR já usadas em outros vírus.

    O acompanhamento precoce, no entanto, é exclusivamente uma das frentes da prevenção. A vacinação contra o HPV – concedida gratuitamente através do SUS para rapazes e moças de 9 a 14 anos – continua essencial.

    “A vacinação protege contra os principais tipos de HPV que causam o câncer do colo do útero. Já o teste identifica mulheres que estão com uma infecção persistente e precisam de acompanhamento. São estratégias complementares”, explica Annelise. “Mesmo pessoas vacinadas precisam fazer o exame, porque a cobertura vacinal ainda não é suficiente para reduzir de forma sustentada as infecções pelo vírus.”

    Para a patologista, melhorar a comunicação sobre o tema é tão importante quanto as novas tecnologias. “Ainda há muito desconhecimento sobre o HPV e sobre o câncer do colo do útero. A educação sexual desde a escola e o diálogo aberto com profissionais de saúde são fundamentais. Estamos falando de um tipo de câncer que é totalmente prevenível – e que pode ser eliminado se unirmos vacina e rastreamento eficaz”, conclui.

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    Fonte: Super Interessante

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