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Por que ainda é tão difícil para o Brasil transformar suas plantas medicinais em produtos farmacêuticos

16 de setembro de 2026
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Por que ainda é tão difícil para o Brasil transformar suas plantas medicinais em produtos farmacêuticos


João Batista Calixto é diretor presidente do CIEnP (Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínicos) e pesquisador da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O texto a seguir foi originalmente postado no site The Conversation, que reúne artigos escritos por pesquisadores. Vale a visita.

O Brasil vive um paradoxo. É uma das maiores potências mundiais em biodiversidade. O país tem uma longa tradição de uso de plantas medicinais. E ainda conta com uma comunidade científica capaz de produzir conhecimento de qualidade internacional. Mas essa combinação ainda não se transformou em patentes, remédios inovadores e produtos com valor agregado para a sociedade.

A nossa biodiversidade precisa ser encarada não unicamente como patrimônio ambiental, mas também como infraestrutura estratégica para Ciência, tecnologia, saúde. E também para o desenvolvimento de produtos inovadores na área da bioeconomia.

Isso não significa transformar os ecossistemas em simples fontes de matérias-primas. Com o auxílio de utilização sustentável, precisamos gerar conhecimento, produtos de alto valor agregado e benefícios econômicos para a sociedade. E também devemos incluir as comunidades detentoras de conhecimentos tradicionais.

O Brasil ainda reúne poucos exemplos de sucesso dessa transformação. O caso mais conhecido é o captopril®, remédio hoje muito usado contra a hipertensão arterial. Seu desenvolvimento teve origem nos estudos pioneiros do professor Sérgio Henrique Ferreira, que atuava na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP, com o uso do veneno da jararaca Bothrops jararaca, uma cobra descoberta em diversas regiões do país. Seus estudos contribuíram para compreensão dos mecanismos envolvidos na hipertensão e para desenvolvimento dos inibidores da enzima conversora de angiotensina.

Outros exemplos incluem fitoterápicos desenvolvidos a começar de plantas medicinais. Como o anti-inflamatório Acheflan®, produzido com as folhas da Cordia verbenacea, o xarope contra tosse Melagrião®, baseado na Mikania glomerata, e o calmante Sintocalmy®, à base de Passiflora incarnata.

Entre 20 fitoterápicos registrados na Anvisa analisados através da nossa equipe em 2016 e 2026, esses três continuam sendo os únicos desenvolvidos no país. Os outros são oriundos de plantas importadas, principalmente da Europa e da Ásia.

Os estudos pré-clínicos para o desenvolvimento desses três remédios naturais foram desenvolvidos através do nosso grupo. A trajetória bem sucedida deles demonstra que é viável transformar conhecimento sobre plantas medicinais em produtos comercialmente disponíveis, com provas cientificas de eficácia e segurança. Ainda assim, eles permanecem como exceções. Uma minoria diante da dimensão da biodiversidade brasileira e do volume de pesquisas realizadas no país.

E o marco regulatório brasileiro para acesso ao patrimônio genético e ao conhecimento tradicional associado faz parte desse complicado sistema.

A Lei nº 13.123/2015 estabeleceu regras para acesso ao patrimônio genético. Além disto, foram definidas regras sobre conhecimento tradicional associado e exploração econômica de produtos derivados. E isso inclui mecanismos de repartição de benefícios.

O grande desafio, em minha opinião, é conciliar proteção da biodiversidade, respeito aos direitos das populações e condições favoráveis à pesquisa e à inovação.

Ensinamentos chineses e indianos

Um artigo postado na prestigiada revista científica Nature Medicine destaca a necessidade de fazer parte diferentes evidências. Isso inclui ensaios clínicos, estudos de efetividade comparativa e dados do mundo real. E mais: ferramentas como inteligência artificial, genômica, proteômica e análise de bases de dados para avaliar as terapias baseadas em plantas.

Essas abordagens podem revelar interações complicadas e padrões difíceis de reconhecer pelos métodos convencionais no estudo de terapias da medicina tradicional.

As experiências chinesas e indianas nos mostram que a inovação em remédios exige uma estratégia integrada e de longo período. E é importante valorizar a transformação do conhecimento tradicional em produtos modernos.

E adotar estratégias capazes de conectar proteção da biodiversidade, pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico, propriedade intelectual, regulação, indústria e financiamento.

Existe muito tempo, a China compreendeu que transformar conhecimento tradicional em inovação exige muito mais do que pesquisas acadêmicas separadas.

No mês de março de 2025, o Escritório Geral do Conselho de Estado da China postou um documento. Nele, estabelece uma política de estado estratégica e abrangente. O plano é melhorar a qualidade dos remédios tradicionais chineses e promover o desenvolvimento de alta qualidade da indústria.

A política começa através da própria base biológica. São medidas para proteger espécies medicinais, definir bancos de dados sobre recursos, desenvolver tecnologias de cultivo e reprodução.

Além disto, busca melhorar sementes e mudas, padronizar o cultivo, controlar a qualidade. E pretende ainda assegurar a rastreabilidade e o fornecimento estável das matérias-primas.

Na etapa industrial, estima modernização das fábricas, incorporação de tecnologias digitais e inteligentes. Com isso, amplificar as empresas para atuarem em toda a cadeia de valor.

Mais importante, estabelece uma ligação direta entre ciência, inovação e desenvolvimento industrial. E apoia pesquisa básica e aplicada, integração entre universidades, instituições de pesquisa e empresas, ciência regulatória, validação em escala-piloto e industrialização.

A estratégia prioriza doenças crônicas, doenças graves complicadas e multialvo e de difícil tratamento e novas doenças infecciosas. E também busca desenvolver remédios tradicionais com eficácia clínica comprovada.

A propriedade intelectual também ocupa lugar central. Com o auxílio do uso integrado de patentes, marcas, indicações geográficas, proteção de variedades vegetais, segredos tecnológicos e proteção do conhecimento tradicional.

Para atingir esses objetivos são previstos instrumentos financeiros, crédito e seguros para cultivo de matérias-primas e desenvolvimento de remédios.

Em síntese, a China procura construir uma política de Estado que começa na proteção dos recursos biológicos e do conhecimento tradicional. Passa através da pesquisa científica e através do desenvolvimento tecnológico. E termina em produtos regulados, protegidos por propriedade intelectual e capazes de competir internacionalmente.

Gargalos da cadeia de inovação

O contraste entre Brasil e China não deve ser comparativo sobre números ou qualidade dos pesquisadores. A questão é essencialmente sistêmica.

O Brasil tem políticas públicas relacionadas a plantas medicinais e fitoterápicos desde 2006. Além de possuir universidades e institutos de pesquisa com experiência na área, empresas farmacêuticas, centros tecnológicos, agências de financiamento e uma agência reguladora estruturada.

O que ainda falta é integrar esses componentes em uma estratégia de longo período.

Política efetiva com a chinesa necessitaria desenvolver projetos desde o desenvolvimento de extratos padronizados a descoberta de moléculas ativas.

E trazer os resultados descobertos até estudos pré-clínicos e clínicos, registro na Anvisa e produção industrial.

Os mecanismos de financiamento também precisam acompanhar toda essa trajetória. Não basta financiar a descoberta se não tiver recursos para as etapas pré-clínica e clínica. É essencial também pensar em escalonamento, transferência de tecnologia e colocação do produto no mercado.

É igualmente necessário amplificar a formação de recursos humanos, desenvolver parcerias entre academia e empresas e superar obstáculos regulatórios, tecnológicos e operacionais.

Muitas publicações, poucas patentes e inovação tecnológica

O paradoxo brasileiro aparece quando se compara a nossa riqueza biológica com a capacidade de transformá-la em inovação. Pesquisadores brasileiros estudam a biodiversidade nacional existe décadas. Artigo de revisão postado por nosso grupo mostra que nossos pesquisadores postaram 63 mil artigos científicos sobre plantas nos últimos 10 anos.

Apesar dessa produção expressiva, a transformação desse conhecimento em remédios é pequena. Estudo de revisão sobre patentes de remédios derivados de plantas medicinais brasileiras reconheceu 25 pedidos envolvendo plantas nativas entre 2003 e 2008. A maioria das invenções havia sido originada em universidades e centros de pesquisa brasileiros. Mas esses depósitos não se traduziram em produtos, em grande parte através da ausência de parcerias com a indústria.

O problema, portanto, não fica na capacidade de gerar conhecimento. Mas na dificuldade de transformá-lo em propriedade intelectual, produtos regulados e tecnologias que cheguem ao mercado.

O Brasil: uma potência mundial em biodiversidade

Essa experiência necessitaria provocar uma reflexão profunda no Brasil. O país tem uma das maiores biodiversidades do planeta. São seis grandes biomas terrestres e extraordinária diversidade de ecossistemas costeiros e marinhos.Estimativas indicam que aproximadamente 20% das espécies conhecidas no mundo ocorrem em território brasileiro. O país tem por volta de 45 a 50 mil espécies conhecidas de plantas e fungos.

Essa diversidade biológica é seguida por uma igualmente rica diversidade cultural.Povos indígenas, comunidades tradicionais e populações rurais desenvolveram conhecimentos sobre propriedades e usos de plantas e outros organismos. Essa combinação constitui uma vantagem científica e econômica extraordinária.

Produtos naturais representam uma fonte comprovadamente importante de novos remédios. Estima-se que aproximadamente 35–40% dos remédios tenham alguma relação com produtos naturais.

O Brasil, portanto, tem elementos importantes para ocupar posição de chefia: biodiversidade, conhecimento tradicional e competência científica. Falta uma política de Estado.

Uma parceria estratégica com a China pode ser de grande valia para impulsionar a inovação em bioeconomia no Brasil.

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Fonte: Super Interessante

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