A primeira pessoa a atribuir um caráter místico às águas entre a Flórida (EUA), Bermudas e Porto Rico foi Cristóvão Colombo, em 1492. O navegador reportou problemas em sua bússula, luzes estranhas no céu, e uma grande quantidade de algas no mar. A área de 1,3 milhão de quilômetros quadrados ficou conhecida como “Triângulo das Bermudas” depois de o Voo 19, que desapareceu no espaço aéreo local em 1945.
Para a tristeza dos conspiracionistas, não existe aliens ou fenômenos sobrenaturais no Triângulo das Bermudas. Os desastres que ocorreram por lá podem muito bem ser explicados por eventos naturais ou falha humana. De acordo com a marinha dos EUA, a taxa de acidentes no Triângulo das Bermudas não é maior do que em qualquer outra área marítima movimentada. Milhares de barcos e aviões passam através do triângulo imaginário todos os anos sem nenhum problema.
No Brasil, por outro lado, existe uma área em que os naufrágios já foram frequentes – e hoje reúne um rico sítio arqueológico subaquático. Trata-se do Parque Estadual Marinho do Parcel de Manuel Luís, localizado a 80 quilômetros da Ilha dos Lençois, no Maranhão. A área de 45 mil hectares ficou conhecida como “Triângulo das Bermudas brasileiro”.
Não se sabe ao certo quantos navios naufragaram na área. Reportagens jornalísticas e a assessoria de comunicação do Ministério do Meio Ambiente apontam para por volta de 200 naufrágios – o que tornaria o Parcel de Manuel Luís um dos maiores cemitérios de embarcações do mundo.
No entanto, um levantamento feito para um Plano de Manejo do parque não viu evidências sólidas para esse número. É provável que os registros de naufrágios velhos tenham se perdido com o passar dos séculos, ou que o valor de 200 embarcações submersas esteja inflado.
Mesmo assim, sabe-se que vários naufrágios já ocorreram por lá. O estudo aponta para 10 embarcações que poderão ser achadas no fundo do Parque Estadual. Os acidentes vão de 1814 a 1984.
A mais famosa delas é a mais recente: o navio cargueiro Ana Cristina, que naufragou no mês de fevereiro de 1984. Ele deixou o porto de Areia Branca (RN) e seguia para Mungubá (PA), com 21 tripulantes e dois passageiros. Ao passar através do Parcel de Manuel Luís, o navio colidiu com um recife de corais. A embarcação pode ser vista por mergulhadores que se aventuram na área.
“Parcel” é o termo usado para se referir a bancos de areia ou rochedos elevados. O que ocorre no “Triângulo das Bermudas Brasileiro”, portanto, não é sobrenatural: os barcos simplesmente se chocavam com essas estruturas naturais submersas.
A área só foi mapeada em 1820 por um hidrógrafo francês, seguindo as convenções de seu país natal. Quem não conhecesse os padrões franceses ficava de mãos atadas. Por muito tempo, os navegadores não sabiam que havia um parcel naquela área.
Embarcações como Venus (1814), Resolução (1818), Jeune Amiral (1885) e Salinas (1904) foram vítimas do parcel. Acidentes do tipo não ocorrem mais, devido à precisão das cartas náuticas atuais. Mesmo assim, para alertar os navegantes, hoje existe uma barca com um farol perto do parcel.
A área é rica em biodiversidade marinha. O Parque Estadual Marinho do Parcel de Manuel Luís foi criado em 1991, vinculado ao município de Cururupu (MA). Ainda são necessários mais estudos para investigar resquícios arqueológicos de naufrágios e também montar planos de preservação da fauna e flora locais.
Fonte: Super Interessante